Química revela de onde vem o pescado
Química revela de onde vem o pescado
Pesquisadores da Embrapa, juntamente com parceiros de universidades brasileiras, desenvolveram uma técnica inovadora que permite identificar a origem geográfica da tainha brasileira (Mugil liza) por meio de um perfil químico específico no músculo do peixe.
Este avanço é importante para garantir a autenticidade e rastreabilidade dos produtos pesqueiros no Brasil. O estudo foi publicado no periódico internacional Fishes e conduzido por Fabíola Fogaça, da Embrapa Agroindústria de Alimentos, e Luiz Colnago, da Embrapa Instrumentação, com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj).
Usando uma técnica chamada Ressonância Magnética Nuclear de Hidrogênio (RMN de ¹H), os pesquisadores mapearam pequenas moléculas presentes no músculo da tainha, criando uma espécie de assinatura química, capaz de diferenciar peixes capturados em diversas regiões do País, como a Lagoa de Araruama (RJ), Baía de Sepetiba (RJ) e litoral de Santa Catarina.
Segundo Fabíola Fogaça, essa técnica representa um avanço para a ciência dos alimentos e para o setor pesqueiro, pois possibilita rastrear a origem do pescado com alta precisão, contribuindo para combater fraudes e garantir a qualidade dos produtos.
Rigor Científico e Tecnologia de Ponta
Para alcançar os resultados, amostras foram coletadas em diferentes estações do ano, e analisadas por meio de um equipamento avançado de RMN de alto campo, capaz de identificar compostos químicos relacionados à alimentação e ao ambiente onde os peixes viveram.
Luiz Colnago destacou que a técnica gera um perfil metabólico detalhado, funcionando como um código de barras químico que separa peixes de origens distintas de forma rápida e não destrutiva.
Foram identificados 23 compostos naturais no músculo da tainha, que revelam informações importantes sobre seu metabolismo, alimentação e adaptação ao ambiente, incluindo lactato, creatina, taurina e aminoácidos essenciais.
Impacto Ambiental na Assinatura Química
A Lagoa de Araruama, maior lagoa hipersalina permanente do mundo, com salinidade média de 52%, influencia diretamente o metabolismo das tainhas. Essas condições ambientais extremas deixam marcas químicas únicas nos peixes, associadas a adaptações fisiológicas específicas.
Fabíola Fogaça ressaltou que a alta salinidade da lagoa altera processos fisiológicos e o uso de aminoácidos pelos peixes, gerando uma assinatura metabólica característica.
Aplicações Práticas e Segurança Alimentar
A técnica desenvolvida tem aplicação direta na prevenção de fraudes comerciais, garantindo a autenticidade da procedência do pescado. O estudo também auxilia no pedido de Indicação Geográfica para a tainha da Lagoa de Araruama junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Luiz Colnago acrescentou que a identificação precisa da procedência protege consumidores, fortalece a fiscalização e valoriza produtos regionais.
O uso da inteligência artificial no processo de análise complementa a integração das áreas científicas para melhorar a segurança alimentar.
Sobre a Técnica de RMN e Metabolômica
A ressonância magnética nuclear, conhecida por seu uso em diagnósticos médicos, é uma técnica antiga e poderosa para identificar estruturas moleculares em alimentos. No estudo, um aparelho de alto campo foi empregado para gerar espectros detalhados das moléculas presentes no pescado.
Essa técnica consegue identificar e quantificar mais de 50 componentes, como açúcares, aminoácidos e gorduras, em uma única análise, sem destruir a amostra.
A metabolômica, ciência que estuda pequenas moléculas produzidas pelo metabolismo, é fundamental para criar a assinatura química do pescado e identificar diferenças relacionadas à região de origem.

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